O que restou
"É no quarto que sonhamos; Onde repousam - ou ardem - nossos mais delicados desejos e segredos"
"Quarto do Artista em Arles", 1889
Autor: Vincent Van Gogh
Óleo sobre tela, 57,5 x 74 cm
Quando batemos os olhos em o "Quarto do Artista em Arles" do holandês Vincent Van Gogh produzido em 1889, não podemos nos esquecer que dez meses após realizar esta pintura, foi para esta cama que o artista arrastou-se e morreu após disparar contra o peito, em um domingo de verão, um tiro de pistola.
Aos 37 anos, o modesto pintor que enfrentava a rejeição de sua arte quase autodidata, era sustentado pelo irmão mais novo Theo, que vivia como Marchand e lhe ofereceu viagem para Arles, onde pode encontrar a luz que tanto perseguia e realizar esta e inúmeras obras tão familiares para os séculos que se seguiram.
Van Gogh é um dos primeiros artistas a abandonar a pintura com a função de "imitar a natureza" como faziam seus antecessores. Gostava de exageros nas cores e tintas, nas pinceladas energéticas e descomprometidas com a exatidão das formas e de exaltar uma aparente simplicidade em suas composições.
A intensidade de sua arte refletia a de sua vida. Epiléptico, suas angústias tão legítimas diante da condição humana jamais permitiram que sucumbisse a padronizações acadêmicas ou sociais.
Sofria de colapsos nervoso e chegou a ser internado em uma clínica psiquiatrica. Mas tais desequilíbrios aguçavam-lhe ainda mais a lucidez pois, em seus retornos, avaliava seus trabalhos e em determinada ocasião confessou que o "Quarto" seria sua melhor obra.Um prenúncio do que nos tecnológicos dias do século XXI enxergamos nas milhares de webcams espalhadas pelo mundo pelas quais internautas expõem a intimidade de suas vidas - Mas com uma perspicaz diferença: ainda que nos convide para penetrar em seu espaço privado seu ocupante não é revelado. Permanece na parede violeta-pálido somente seu penúltimo auto-retrato como que oferecendo apenas pistas daquele que ali atravessa seu cotidiano.
Para o artista, esta obra deveria sugerir o descanso e o sono; por suas próprias palavras, "descansar a mente, ou melhor, a imaginação".
Nesta simples cama de camponês, cobria-se com um cobertor vermelho e sonhava criar uma colônia para reunir artistas como Paul Gauguin, um de seus poucos, mas super amigo.
No "Quarto", a segunda cadeira seria a referência para a homenagem que Van Gogh teria reservado ao colega enquanto o aguardava para uma visita em outubro de 1888. O calor desta excepcional amizade levou Van Gogh a alterar a cor original branca do assento para o dourado solar que a torna tão convidativa. No entanto, 2 meses depois da chegada de Gauguin, na noite de natal, uma discussão precipitou Van Gogh que arremessou um copo no rosto de seu companheiro. No dia seguinte à briga, suas aflições o levaram a decepar a própria orelha.
Sem conseguir vender suas obras - há 100 anos os olhares burgueses estavam cegos para enxergar ali as revolucionárias sementes da Pintura Moderna - hoje, suas telas estão entre as mais valiosas do planeta.
Suas pinturas tornaram-se uma rentável indústria que se dispôe em reproduções, imás de geladeira, e toda sorte de bugigangas oferecidas a turistas no balcão do museu fundado em seu nome em Amsterdã.
Assim como ocorreu com a "Monalisa" de Leonardo da Vinci, o "Quarto do Artista em Arles" de Vincent Van Gogh, ao alcançar o domínio público pela escala mercantil, também tem sido violado pela reprodutibilidade em série, que hoje caracteriza a sociedade de massa, leviana e superficial que acaba por vulgarizar na condição de mercadoria, todas suas possibilidades.
Para lembrar Karl Marx, "A História se repete no entanto, se em sua primeira versão apresenta-se como tragédia, na segunda, ocorre como farsa."
Assim, a mesma ordem burguesa que o recusou como louco no século XIX, hoje, 100 anos depois, confere-lhe status de requinte. Como sentenciou Gutemberg Alexandrino, "devemos lembrar que Van Gogh é o nome escolhido para batizar uma sala exclusiva dedicada aos clientes mais endinheirados de um conglomerado de bancos espanhol.
Sentado à beira de sua cama, Van Gogh jamais presumiria o que ainda ocorreria com sua assinatura.
Seus trabalhos recusam-se à obediência de padrões de "bom gosto". A essência de sua arte se ampara no desalinho e na desordem, no harmonioso ritmo de seu desvario e alucinações.
As grossas pinceladas de Van Gogh nos chocam e paralisam como as cordas da guitarra de Jimi Hendrix reproduzindo em Woodstock, as bombas que caíam no Vietnã.
No silêncio de seu quarto, desejamos nos deitar para sonhar em sua cama, cobrindo nosso corpo com seu cobertor vermelho... inundados pela viva cor do sangue vibrante que alimenta, faz pulsar e - diante do poder da obra de Van Gogh - dispara sempre nosso coração.
No silêncio de seu quarto, desejamos nos deitar para sonhar em sua cama, cobrindo nosso corpo com seu cobertor vermelho... inundados pela viva cor do sangue vibrante que alimenta, faz pulsar e - diante do poder da obra de Van Gogh - dispara sempre nosso coração.
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